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Leticia Bufoni: 12 medalhas no X Games, nenhuma nos Jogos — quanto isso pesa em 2026?

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Leticia Bufoni: 12 medalhas no X Games, nenhuma nos Jogos — quanto isso pesa em 2026?

Six ors, douze médailles X Games, et une seule ligne olympique : neuvième à Tokyo. En juillet 2026 ses deux derniers records sont tombés. Ce que ça change vraiment à sa place dans le skate.

21 août 2026 · 8 min de lecture
Guillaume Martin

Rédacteur skate chez NOSK8.

Spots, portraits et culture skate française — chaque article est relu et sourcé. Trois générations de pros au compteur. Chronique mensuelle.

Doze medalhas no X Games. Seis de ouro. O recorde de maior número de medalhas já conquistadas por uma mulher na história do X Games de verão. E, do outro lado, uma única linha olímpica: Tóquio, 2021, nono lugar, eliminada antes da final.

Faz cinco semanas que a mesma pergunta se repete nos comentários: uma carreira dessas ainda vale alguma coisa num skate que hoje se mede em argolas olímpicas? Em julho de 2026, em Nova Orleans, os dois últimos recordes dela caíram. E ela estava lá, dentro da arena. A gente te dá a resposta — mas não agora.

São Paulo, 9 anos: o pai quebra o skate na frente dela

Zona leste de São Paulo, começo dos anos 2000. Uma pivete rolando na rua com dez moleques, todos mais velhos, todos em cima de um skate. Ela é a única menina. O pai acha aquilo fora de lugar. Um dia, ele pega o skate e quebra bem na frente dela. Depois solta: «Você não anda mais. Nunca mais.»

Ela já contou a cena várias vezes, sempre com as mesmas palavras. «Ele explodiu meu skate na minha frente.» O que ela não conta é o que deixa a história realmente interessante: ele acabou cedendo. E não só cedendo — passou a acompanhar. O pai que quebrou o skate é o mesmo que, cinco anos depois, deixou a filha de 14 anos ir morar nos Estados Unidos.

A avó tinha dado a ela o primeiro skate aos 11 anos. Entre uma coisa e outra, teve os blocos de concreto do bairro, as beiradas de calçada e aquela obsessão típica de moleque que não tem mais nada pra fazer da tarde. Sem computador, sem celular. Só a rua.

Leticia Bufoni, sessão de noseblunt nas ruas de São Paulo

14 anos, uma passagem só de ida pra Los Angeles

Aos 14 anos, ela vai embora. Não é intercâmbio, não são férias: ela se instala na Califórnia com uns amigos mais velhos. Se matricula na Hollywood High School, mata tanta aula que ameaçam expulsá-la, e acaba largando a escola. A conta é brutal e totalmente assumida: skate ou nada.

No mesmo ano, em 2007, ela entra pela primeira vez no X Games. Oitavo lugar. Aos 14, encarando mulheres que já andavam de skate desde antes de ela nascer. Três anos depois vem a primeira medalha, e emenda seis medalhas consecutivas no street entre 2010 e 2014.

Leticia Bufoni, de boné Red Bull e moletom Nike SB, com o skate no pé num pico abandonado do deserto californiano
Vinte anos depois de deixar São Paulo: Bufoni num pico selvagem do deserto californiano, longe de qualquer arena. É ali que ela passa a maior parte do tempo hoje. Foto: X Games (mídia oficial).

12 medalhas, 6 de ouro: a conta exata

O número circula errado por aí, então melhor deixar claro. Segundo a ficha oficial do X Games: 6 medalhas de ouro, 3 de prata, 3 de bronze. Doze no total. Cinco desses ouros são no street, e o sexto veio de uma prova multiesportiva vencida em Barcelona, em 2013.

2013, aliás. Naquele ano, ela se torna a única mulher da história do X Games a faturar três ouros numa mesma temporada. Tem 20 anos. Dois anos depois, ganha o primeiro título mundial feminino da Street League em Chicago e vira a primeira skatista contratada pela Nike SB. Não a primeira brasileira: a primeira, ponto.

E tem aquilo que ninguém nunca refez. Em 2022, ela salta de um avião militar a 2.750 metros de altitude e faz um grind num corrimão preso à rampa traseira, em queda livre. Homologado pelo Guinness. É absurdo, é perfeitamente inútil, e é exatamente o que explica por que o nome dela extrapola o meio do skate.

A linha do tempo

Carreira

  1. 2013Leticia Bufoni conquista o ouro no street do X GamesX GamesTrês ouros numa única temporada. Nenhuma outra mulher repetiu isso desde então.
  2. 2015Leticia Bufoni, o vídeo da chegada dela à Nike SBNike SBPrimeira skatista da história contratada pela Nike SB. A porta se abre para todas as que vieram depois.
  3. 2015Final Super Crown feminina em Chicago, vencida por Leticia BufoniSLSPrimeiro título mundial feminino da Street League, em Chicago. É ali que o circuito profissional feminino realmente engata.
  4. 2021A volta de ouro de Leticia Bufoni no X Games 2021X GamesSexto ouro. Ela passa Elissa Steamer e assume o recorde de vitórias no street.
  5. 2022Leticia Bufoni faz um grind num corrimão ao sair de um avião a 2.750 metros de altitudeGuinness World RecordsGrind num corrimão na saída de um avião, a 2.750 m. Recorde homologado, nunca nem chegaram perto desde então.

Tóquio 2021: eliminada a uma posição da final

26 de julho de 2021, Ariake Urban Sports Park. Vinte skatistas, uma semifinal, oito vagas para a final. Bufoni termina em nono lugar, com 10,91 pontos. Uma posição. Faltou uma posição.

Na frente dela, o pódio fica com três garotas: Momiji Nishiya e Funa Nakayama pelo Japão, e uma brasileira de 13 anos que se tornaria a skatista mais acompanhada do planeta — Rayssa Leal. Bufoni tinha 28 anos e já dez medalhas de X Games. Na noite da final, ela não está nem no pódio, nem na pista.

Rayssa Leal num boardslide em corrimão durante a prova de street dos Jogos de Tóquio 2021
O dia em que os Jogos viraram a chave para o Brasil: Rayssa Leal, 13 anos, com a prata em Tóquio enquanto Bufoni caía na semifinal. Foto: Breno Barros — CC BY 3.0 BR, via Wikimedia Commons.

Ela nunca voltou. Paris 2024 aconteceu sem ela: o Brasil mandou outra geração, e Bufoni já tinha seguido em frente — o rali, os projetos, a liga. Uma única aparição olímpica, portanto. Nono lugar.

Leticia Bufoni nos Jogos de Tóquio, sua única aparição olímpica

Julho de 2026: os dois recordes dela caem em 48 horas

E então, neste verão, o chão some pela segunda vez. No dia 25 de julho, no Superdome de Nova Orleans, Chloe Covell vence a final de street e chega a 12 medalhas de X Games. O recorde de Bufoni está empatado. No dia seguinte, Mizuho Hasegawa (XC Tokyo) fica com a prata no park, sobe para 13 e se torna a mulher mais medalhada da história do X Games de verão.

Três semanas antes, no Japão, Covell já tinha empatado o outro recorde dela: cinco ouros no street, marca que estava de pé desde a vitória de 2021. Dois recordes perdidos em um mês. Imagina a cena: a lenda vendo suas linhas serem apagadas, ao vivo, sob os holofotes.

Chloe Covell num slide de ledge durante a final de street do X Games de Nova Orleans, na noite em que os recordes de Bufoni caíram
Nova Orleans, 25 de julho de 2026: a volta que derruba os recordes de Bufoni. Covell tem 16 anos e doze medalhas. Foto: Durso — X Games (mídia oficial).

Só que não. Ela não assistiu de longe. Passou o fim de semana inteiro com Covell — a australiana contou isso ela mesma depois da vitória: «A Leticia é muito importante para esse esporte, e eu fiquei junto com ela o fim de semana todo.» Bufoni estava lá porque a competição é dela. Literalmente.

Então, isso muda o quê no lugar dela dentro do skate?

A resposta é essa, sem rodeio: não, não muda nada — e por um motivo que não tem nada a ver com sentimentalismo. Desde setembro de 2025, Leticia Bufoni é Founder Athlete da X Games League, a liga por equipes que estreou sua primeira temporada em 2026. Ela não participa como competidora. Ela desenha os formatos, a experiência dos atletas, a cultura. Ou seja: os recordes que caíram em julho caíram numa competição que ela ajudou a construir.

Some a isso: ela também é a representante oficial dos atletas junto à World Skate, a federação internacional reconhecida pelo COI. A mesma instituição que organiza a classificação olímpica. A skatista que nunca teve medalha nos Jogos senta na mesa onde se decidem as regras dos Jogos.

Uma medalha olímpica classifica um atleta num dia específico. Ela não diz nada sobre o que sobra dez anos depois. Bufoni abriu a porta da Nike SB para as skatistas, tornou o circuito feminino economicamente viável ao torná-lo assistível, e construiu o cenário no qual Covell, Leal e Hasegawa vencem hoje. A temporada 2026 da XGL é a prova disso: são as ideias dela que estão rodando, enquanto os números dela são batidos.

Leticia Bufoni no ar acima de um bowl pichado de um posto de gasolina abandonado, skate solto sob os pés
Sem juízes, sem pódio, sem medalhas: Bufoni voando acima de um posto de gasolina abandonado no deserto. Foi essa a imagem que ela escolheu para o pós-contest. Foto: X Games (mídia oficial).

O que fica

Ela tem 33 anos. Não corre mais atrás de ranking. Anda em picos abandonados, pilota no rali-raid, constrói uma liga. E segue sendo, para um monte de menina que está começando hoje, a primeira imagem que elas tiveram de uma skatista profissional.

O que Tóquio não deu, dez anos de estrada deram de outro jeito. Medalha se conta. Lugar se conquista.

Uma medalha olímpica vale mais que 12 medalhas de X Games na tua visão ? Manda a tua.Deixar um comentário

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Le lexique

  1. 1

    street

    Discipline du skate qui se pratique sur du mobilier urbain : rails, marches, rebords. C'est l'épreuve reine des contests.

  2. 2

    run

    Passage chronométré d'un skateur sur le parcours, généralement 45 secondes, noté par les juges.

  3. 3

    grind

    Figure où le skateur glisse sur un rail ou un rebord avec les axes métalliques de sa planche, pas avec la planche elle-même.

  4. 4

    boardslide

    Glisse sur un rail avec le dessous de la planche posé en travers, les deux axes de chaque côté du rail.

  5. 5

    park

    Discipline olympique qui se dispute dans une cuvette de béton faite de courbes, à l'opposé du street et de ses angles droits.

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