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Elissa Steamer, 1996: a única mina em Welcome to Hell — por que o nome dela falta em todo lugar?

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Elissa Steamer, 1996: a única mina em Welcome to Hell — por que o nome dela falta em todo lugar?

En 1996, Elissa Steamer est la seule fille à avoir une part dans Welcome to Hell. Trente ans après, son nom manque dans toutes les listes. Voici pourquoi.

19 septembre 2026 · 10 min de lecture
Guillaume Martin

Rédacteur skate chez NOSK8.

Spots, portraits et culture skate française : chaque article est relu et sourcé. Trois générations de pros au compteur. Chronique mensuelle.

Fort Myers, Flórida, primavera de 1996. Um skatista da Toy Machine desembarca da Califórnia com uma câmera e se instala na casa dela pela semana. O nome dele é Jamie Thomas. Ele veio filmar a part de uma moleca do park municipal da Grand Avenue que nunca teve uma única imagem no próprio nome.

O vídeo vai sair com o título Welcome to Hell. Trinta e cinco minutos que vão reformatar o street americano. Uma única mina nos créditos. E hoje, quando você esbarra num ranking das parts que mudaram tudo, ela não está lá.

Não é esquecimento por maldade. Não é apagamento por conspiração. Só ausência. A gente vai ver exatamente por quê. Mas antes é preciso contar o que realmente rolou naquela semana, e nos vinte e dois anos que vieram depois.

Fort Myers, 1989: um park municipal e zero plano de carreira

Ela começa a andar de skate em 1989, em Fort Myers. Nada de Califórnia, nada de San Francisco, nada de bairro com cena. Um park municipal pequeno na Grand Avenue, numa cidade da Flórida onde não acontece nada.

Em 1995, Lance Mountain começa a mandar shapes pra ela pela The Firm. A Real oferece na sequência. No fim, quem leva ela é a Toy Machine, na insistência do Chad Muska, na época peça-chave do team. Naquele momento, a marca do Ed Templeton era Muska, Mike Maldonado, Jamie Thomas e Brian Anderson.

O detalhe que importa: ninguém chamou ela como “a menina”. Ela chega como os outros, por um parceiro do team que achou que ela mandava bem. É a última vez que vai ser assim.

Uma semana na casa dela, uma câmera, e a primeira part feminina do street

Thomas larga as malas em Fort Myers e filma a seção inteira dela em uma semana, segundo a ficha oficial do Skateboarding Hall of Fame. É a primeiríssima footage dela. Não é um best-of acumulado em três anos: sete dias de rua, e vai pra edição.

Sony VX1000, la caméra avec laquelle Jamie Thomas a filmé la part de Elissa Steamer pour Welcome to Hell à Fort Myers en 1996
Essa é a ferramenta: uma Sony VX1000, o padrão de uma década inteira. Sete dias de rua em Fort Myers, e a primeira part feminina do street tá na caixa. Foto: Orson Wireless — CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

Olha o resultado. Não é bônus de fim de vídeo, não é cartela de “menção especial”, não é edição com dó. É uma part, plantada no meio das outras, com o mesmo tratamento e a mesma música pesada.

Elissa Steamer — part Welcome to Hell (Toy Machine, 1996)

Em 1997, esse vídeo rolava de mão em mão em VHS de terceira geração. Imagem borrada, som estourado, contador maluco. Você assistia na casa do parceiro que tinha a cópia, e quando a part dela entrava, sempre tinha alguém na sala pra soltar “peraí, é uma mina?”. Ninguém respondia. A gente rebobinava e assistia de novo.

O que a part prova, e a palavra que ninguém usou

O Hall of Fame descreve ela como “a primeira menina, desde a explosão do skate de rua, a ser aceita no clube dos meninos como uma igual”. Relê a frase. Aceita no. Não “uma das melhores parts de 1996”. Aceita. O elogio já traz o desvio dentro dele.

Nossa crônica dos trinta anos de Welcome to Hell dizia de outro jeito: a passagem dela não tem nada de cota. Ela manda street bruto, no nível dos caras em volta, num vídeo que nunca passou a mão na cabeça de ninguém.

Ela vira pro em abril de 1998 e emenda outra part em Jump Off a Building. Quando o team da Toy Machine esvazia, ela liga pro Templeton pra avisar que vai embora também, e cai na Bootleg, a submarca da Baker montada por Jay Strickland com Andrew Reynolds. Em 2014 ela contaria que os maiores cheques de royalties de shape da carreira dela são desse período.

Elissa Steamer — part Jump Off a Building (Toy Machine, 1998)

Dois anos depois de Welcome to Hell, a prova é refeita em público. Mesma marca, mesmo tratamento, zero condescendência. E ainda assim ninguém pra colocar ela na lista certa.

A linha do tempo

Carreira

  1. 2000Elissa Steamer, part Baker 2G en 2000BakerPart em Baker 2G, ao lado de Reynolds e Ellington. Ela é a única mulher do roster.
  2. 2003Elissa Steamer, part Bootleg 3000 en 2003BootlegBootleg 3000. A marca fecha logo depois do lançamento, e ela fica sem board sponsor.
  3. 2009Elissa Steamer, section partagée dans Strange World chez Zero en 2009ZeroCinco anos na Zero, e uma única seção: a que ela divide com Jamie Thomas em Strange World.
  4. 2018Baker Skateboards annonce la planche pro de Elissa Steamer en 2018BakerA Baker passa ela pro e lança o primeiro shape signature dela pela marca. Ela tem 42 anos.
  5. 2020Elissa Steamer jouable dans Tony Hawk Pro Skater 1 + 2, vingt et un ans aprèsTHPS 1+2O remake de Tony Hawk’s Pro Skater devolve ela ao roster. Vinte e um anos depois do primeiro jogo.

190.000 dólares de royalties, e milhões de moleques que não sabiam o nome dela

Ela é jogável nos cinco primeiros Tony Hawk’s Pro Skater e depois no remake de 2020. No primeiro jogo, lançado em 1999, ela é a única mulher do roster, cercada por Hawk, Caballero, Muska, Reynolds, Rowley e Thomas.

Andrew Reynolds contou em 2014 o que aquilo rendeu: “No primeiro jogo, todo mundo foi pago. Elissa Steamer, eu, os outros, a gente ria, recebemos um cheque de royalties de uns 190.000 dólares. E a gente pensava: quê? isso é loucura! […] Amo o fato de a Elissa Steamer ter embolsado 190.000 dólares também. É a minha parte favorita.” Ela confirmou no mesmo ano que os maiores cheques da carreira vieram dos videogames, não do skate.

PlayStation grise et sa manette, la console sur laquelle des millions de gamins ont joué Elissa Steamer dans Tony Hawk Pro Skater sans connaître son nom
Milhões de moleques selecionaram o nome dela nesse menu sem nunca saber que tinha uma pessoa por trás. Foto: Evan-Amos — domínio público, via Wikimedia Commons.

Guarda essa imagem, a gente volta nela em dois minutos. É ela que explica o resto.

Quatro ouros no X Games — e vontade de vomitar aos 33

A categoria street feminina só existe no X Games a partir de 2004. Ela ganha a primeira de todas. Depois 2005. Depois 2006. Em 2007 termina em segundo atrás de Marisa Dal Santo, e em 2008 retoma o ouro em Los Angeles.

Depois dessa última vitória, ela conta ao New York Times que sentiu vontade de vomitar durante o campeonato inteiro, e põe na conta da idade. Ela tem 33 anos. Mimi Knoop, vice-presidente da Action Sports Alliance, resume: “A Elissa abriu o caminho pra essas meninas no street e colocou o sarrafo pra todas que estão chegando.”

No meio disso, Jamie Thomas trouxe ela pra Zero em junho de 2006. Cinco anos, e nenhuma part completa. Só uma seção dividida com ele. Quando ela sai, em julho de 2011, fala sem rodeio: “É como terminar um relacionamento. A Zero foram cinco anos da minha vida.”

Essa é mais ou menos a única vez em que alguém estendeu um microfone pra ela por tempo suficiente pra que contasse: a VICE dedicou quatro episódios de Epicly Later’d a ela. Quatro episódios, pra uma carreira de trinta anos.

Epicly Later'd : Elissa Steamer (VICE)

Por que o nome dela falta em todo lugar

A resposta é essa, e cabe numa frase: nunca botaram ela na mesma lista que os outros. Três mecanismos, que se somaram.

O primeiro é o ranking. A memória do skate se constrói por comparação. Sua part contra a minha, seu 1996 contra o dela. Ela foi guardada numa categoria à parte desde o primeiro dia: “a melhor skatista”. Um elogio que tirou ela do ranking geral. Ninguém nunca precisou decidir entre a part dela e a do Brian Anderson, então ela nunca apareceu na mesma lista.

O segundo é a falta de herdeiras. Uma lenda se transmite por quem cita ela. Durante vinte anos, ninguém foi apresentado como “a nova Steamer”, porque não tinha nem circuito nem team feminino atrás dela pra produzir uma linhagem. Uma exceção não faz escola. Ela continua sendo a história que a gente solta no fim da conversa.

O terceiro é o paradoxo do PlayStation. A mídia que espalhou o nome dela mais longe é exatamente a que apagou a pessoa. Milhões de moleques selecionaram ela num menu, passaram horas fazendo manual com ela no Warehouse, sem nunca se perguntar um segundo quem ela era. Ela não era uma skatista pra acompanhar. Era um personagem. O nome dela ficou onipresente e vazio ao mesmo tempo.

Junta a isso que ela nunca contou a própria história (cinco anos na Zero sem part completa, poucas entrevistas, zero storytelling) e você tem o dossiê completo. O nome dela falta em todo lugar porque nunca teve uma caixinha onde caber.

2018: a Baker faz o shape dela, vinte e dois anos depois

Em junho de 2018, a Shake Junt lança um guest board com o nome dela. Poucos dias depois, a Baker passa ela pro e solta o primeiro shape signature dela pela marca. Ela tem 42 anos, e é a primeira vez na carreira que uma marca desse tamanho dá o status pra ela sem condição nenhuma.

O resto roda no ritmo dela: a Gnarhunters, projeto próprio lançado no fim de 2013 com a FTC, distribuído pela Baker Boys desde 2021. O Skateboarding Hall of Fame em 2015. San Francisco, uma casa, cachorros, o surfe.

Rayssa Leal en boardslide sur le rail de la finale olympique de Tokyo, la génération qui skate derrière la porte ouverte par Elissa Steamer
Tóquio, julho de 2021: Rayssa Leal no rail, na final olímpica, aos 13 anos. Vinte e cinco anos antes, uma menina tinha uma part e zero categoria onde competir. Foto: Breno Barros / rededoesporte.gov.br — CC BY 3.0 BR, via Wikimedia Commons.

Hoje, quando você vê uma moleca de treze anos mandar um rail em final mundial e assinar com uma marca antes de terminar a escola, Rayssa Leal e todas que vêm atrás, tem uma part filmada em uma semana na Flórida na ponta dessa corrente. Ninguém cita ela. E mesmo assim ela tá ali, em cada contrato assinado.

Então, se você refizer sua lista das parts que mudaram alguma coisa, bota ela dentro. Não na categoria do lado. Na lista.

Você descobriu ela em Welcome to Hell ou no menu do Tony Hawk? Conta como você esbarrou no nome dela pela primeira vez.Postar um comentário

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Le lexique

  1. 1

    part

    Section individuelle d'une vidéo de skate, montée pour un seul rider, avec sa musique et ses images à lui.

  2. 2

    VX1000

    Caméra Sony sortie en 1995, devenue l'outil standard du skate de rue pendant près de quinze ans.

  3. 3

    guest board

    Planche éditée en série limitée pour un skateur qui ne fait pas partie du team officiel de la marque.

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