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★ Portraits
Rayssa Leal, 4 títulos seguidos aos 18 anos: por que ninguém ganha dela?
Le 9 août 2026 à Rio, elle chute sur sa première tentative et gagne quand même. Quatre couronnes SLS d'affilée, deux médailles olympiques : pourquoi personne n'arrive à battre Rayssa Leal ?
→ Pour aller plus loin : Lizzie Armanto a bouclé la loop de Tony Hawk en 2018 : pourquoi on parle si peu d’elle ?
Em 9 de agosto de 2026, no Maracanãzinho, no Rio, Rayssa Leal cai logo na primeira tentativa. Numa arena inteira do lado dela. Vinte minutos depois, sai com a vitória — 20,9 contra 20,7 de Momiji Nishiya, campeã olímpica de Tóquio. Dois décimos.
⏱ Leitura: 7 min
Faz sete anos que é assim. Ela está atrás no placar, erra, todo mundo já dá por eliminada — e ela vence mesmo assim. Quatro coroas mundiais da SLS seguidas, duas medalhas olímpicas e uma regularidade que o skate feminino nunca tinha visto nessa idade. A pergunta que roda em todos os chats ao vivo há duas temporadas é simples: por que ninguém consegue ganhar dela? A resposta não é o currículo nem o talento bruto. É mais precisa que isso — e a gente chega lá.
2015, 7 anos: o heelflip de tutu que rodou o mundo
Primeiro, o começo — porque ele explica todo o resto. Rayssa cresceu em Imperatriz, no Maranhão, segunda maior cidade de um estado do nordeste do Brasil que nunca tinha revelado um único skatista profissional. O pai treina times de futebol. Ela ganhou o primeiro skate aos 6 anos, presente de um amigo da família.
Em 7 de setembro de 2015, a mãe dela, Lilian, filma com o celular. Rayssa tem 7 anos, ainda está com a fantasia de fada de um desfile da escola, e manda um heelflip por cima de uma escadinha. Sem vacilar. O vídeo se espalha pelas redes, chega até Tony Hawk, que reposta no dia seguinte. Da noite pro dia, uma menina que ninguém conhecia vira A Fadinha do Skate.

Não sei nada sobre ela, mas isso é inacreditável: um heelflip digno de conto de fadas, no Brasil. — Tony Hawk, no Twitter, 8 de setembro de 2015
2019, 11 anos: a vencedora mais jovem da história da SLS
O apelido podia ter parado por aí, como aconteceu com centenas de crianças virais antes dela. Quatro anos depois, ela chega ao circuito internacional com uma liberação especial — era jovem demais pra competir sem autorização. Em maio de 2019, em Londres, termina em 3a numa etapa da Street League Skateboarding, na frente de Leticia Bufoni e Alexis Sablone. A skatista mais jovem a subir num pódio da SLS, contando homens e mulheres.
Dois meses depois, em Los Angeles, ela vence a etapa. Aos 11 anos. O recorde anterior era de Nyjah Huston. E aí está a virada de verdade: entre os 11 e os 13 anos, enquanto os colegas de classe faziam prova na escola, ela emendava finais profissionais. Dessas finais, aos 18 anos ela já tinha acumulado mais do que a maioria dos pros aos 25.
Tóquio 2021: medalhista aos 13 anos e 203 dias
O skate street faz sua estreia olímpica em Tóquio, em julho de 2021. Rayssa sai das classificatórias em 3a e leva a prata na final, atrás de Momiji Nishiya. Aos 13 anos e 203 dias, se torna a medalhista olímpica mais jovem da história do Brasil e a atleta mais jovem a subir num pódio olímpico em 85 anos — recorde homologado pelo Guinness, dividido com Nishiya e Funa Nakayama.
Em poucos dias, o Instagram dela ganha 5,8 milhões de seguidores. Ela ainda leva o Visa Award pela postura com as adversárias: as imagens dela abraçando skatistas que acabavam de ficar na sua frente rendem mais visualizações que as próprias manobras. É aí que ela deixa de ser uma história de skate pra virar uma história, ponto final.
Crescer com o mundo inteiro olhando
O que os resumos de carreira sempre pulam: entre os 13 e os 18 anos, ela fez o ensino médio sob contrato, com entrevistas traduzidas em seis idiomas e pressão o tempo todo. Faz psicoterapia há anos e fala disso abertamente. O entorno dela — família, equipe, agente — filtra todo o resto.
Isso não é detalhe. Skate de campeonato é 45 segundos de volta e cinco tentativas isoladas, avaliadas na hora por um júri. A técnica é necessária. Saber lidar com o erro, esse sim é decisivo — e é aí que mora toda a resposta pra pergunta do título. Mais dois minutos de paciência.
Paris 2024: o bronze de uma skatista que mudou de skate
Três anos depois de Tóquio, ela volta diferente. Menos tudo-ou-nada, mais construção: leva o bronze em Paris com 88,83 pontos, aos 16 anos, e se torna a brasileira mais jovem com duas medalhas olímpicas. Entre os dois Jogos, preencheu as lacunas que faltavam: ouro no X Games de Chiba em 2022 e depois em 2023, campeã mundial da World Skate em 2022 e 2024, ouro nos Jogos Pan-Americanos de Santiago em 2023 — a primeira medalha de ouro do Brasil naquela edição, contando todas as modalidades.
E principalmente: ela vira pro. Em maio de 2022, a April Skateboards, marca do Shane O'Neill, lança o primeiro shape signature dela. O nome: Fadinha. Ela comemora com um back lip no Hollywood 16, o corrimão mais filmado de Los Angeles. Recado dado: a menina viral virou uma skatista de rua que os pros respeitam.
Quatro coroas da SLS seguidas — o número que ninguém viu chegando
O Super Crown é a final anual da SLS: o título de campeã mundial da liga. Rayssa venceu em 2022 no Rio, em 2023 em São Paulo, em 2024 em São Paulo e, em dezembro de 2025, em São Paulo de novo. Quatro seguidas. No feminino, ninguém tinha passado de duas.

De quebra, ela derrubou dois tetos de vidro — com números pra provar. Em 2021, em Salt Lake City, encaixou um kickflip emendado com uma manobra no handrail — nenhuma mulher tinha feito isso em competição oficial. Em 2023, em São Paulo, cravou o primeiro 9,0 feminino da história da SLS numa volta.
Carreira
- 2015
Rayssa LealO heelflip filmado pela mãe, repostado por Tony Hawk. 7 anos, nenhum plano de carreira. - 2019
SLS 2019Etapa de Los Angeles vencida aos 11 anos. A vencedora mais jovem da história da liga. - 2021
OlympicsPrata no street em Tóquio, aos 13 anos e 203 dias. A medalhista olímpica mais jovem em 85 anos. - 2024
SLSBronze olímpico em Paris e, na sequência, o terceiro Super Crown seguido depois de errar as duas primeiras manobras. - 2026
SLSSydney em fevereiro, Rio em agosto: duas etapas vencidas numa temporada em que a liga jurava que dava pra ganhar dela.
A resposta: ela vence nos últimos trinta segundos
Aí está o segredo de verdade. Rayssa Leal não domina por ter o maior repertório de manobras do circuito — Chloe Covell levou a etapa de Los Angeles em abril de 2026, Momiji Nishiya segue perigosa nas voltas. Ela domina porque pontua quando não sobra mais nada.
Olha a lista — é pública e dá pra conferir:
28 de agosto de 2021, SLS Salt Lake City. Última manobra, ela precisa de 8,3 pra ultrapassar Funa Nakayama. Crava 8,5 — a maior nota da história da SLS feminina até aquele momento.
Outubro de 2021, SLS Lake Havasu. Ela retoma a frente de Momiji Nishiya na última tentativa da final.
15 de dezembro de 2024, Super Crown São Paulo. Erra as duas primeiras manobras individuais. Situação em que não dá mais pra errar. Tira duas notas do 9 Club e um 8,7. Terceiro título.
9 de agosto de 2026, SLS Rio. Queda na primeira tentativa. Depois 6,8, depois 7,1, depois 7,0 na sexta manobra. Ela passa Nishiya por 0,2 ponto.
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Quatro vezes seguidas já não é sorte.
O formato da SLS avalia cada tentativa separadamente: errar três vezes não custa nada se a quarta entra. Em outras palavras, a liga não premia a skatista mais limpa — premia aquela que consegue mandar a mesma manobra de novo, na velocidade máxima, logo depois de ter ido pro chão na frente de uma arena que prendeu a respiração. Você conhece a sensação. Você se quebra no corrimão uma vez e, na tentativa seguinte, alivia sem perceber. O corpo decide sozinho.
Ela, não. Ela volta no mesmo ritmo, no mesmo obstáculo, como se a tentativa anterior não tivesse existido. É a parte mais difícil do skate de campeonato — e é a especialidade dela.
Essa habilidade ela não aprendeu numa pista. Aprendeu emendando finais profissionais desde os 11 anos, numa idade em que o cérebro encaixa o erro em público sem ainda ter construído o medo do ridículo. As concorrentes dela começaram a disputar finais aos 15, 16, 18 anos. Ela tem sete anos de vantagem no exercício mais difícil do esporte: errar na frente de todo mundo e tentar de novo na hora.

O que isso muda daqui pra frente
A cena feminina atrás dela nunca foi tão densa. Nishiya está a dois décimos. Chloe Covell venceu a etapa da SLS de Los Angeles em abril de 2026. Gabi Mazetto gira no top 5 mundial. O nível técnico das finais femininas evoluiu mais em cinco anos do que nos vinte anteriores — porque uma menina de 13 anos mostrou pra milhares de outras que a porta estava aberta.
Rayssa Leal vai ter 20 anos nos Jogos de Los Angeles, em 2028. Nessa idade, vai carregar dez anos de finais pro nas costas. Se você quer entender o que realmente está em jogo numa etapa do circuito, nossa análise da vitória de Cordano Russell no Rio mostra a mesma mecânica do lado masculino: nunca são as manobras mais bonitas que vencem, são as que entram na última tentativa. E se você está começando, nosso guia pra escolher seu primeiro skate evita os erros que saem caro.
Uma última coisa. Em Tóquio, aos 13 anos, ela passou a final aplaudindo as voltas das skatistas que estavam na frente dela — de um jeito tão visível que o comitê olímpico entregou a ela um prêmio de postura e 50 mil dólares pra repassar à instituição que ela escolhesse. Cinco anos e quatro coroas depois, ela ainda abraça as adversárias antes de erguer os próprios braços. Isso também faz parte da resposta.
E você, depois de se quebrar feio, manda o mesmo trick na sequência ou troca de pico? Fala a real.Deixar um comentário
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Le lexique
-
1
heelflip
Figure où la planche fait un tour complet sur elle-même, lancée par un coup de talon vers l'extérieur.
-
2
back lip
Glisse sur un rail où le plateau repose sur le tail, le skateur arrivant dos à l'obstacle.
-
3
kickflip
Rotation complète de la planche sur son axe, déclenchée par un coup de pointe de pied vers l'extérieur.
-
4
run
Passage chronométré de 45 secondes en compétition, où la skateuse enchaîne librement les figures sur le parcours.
-
5
9 Club
Terme du Street League pour une manœuvre notée 9 ou plus par le jury, sur une échelle de 10.
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