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Pedro Barros tem um bowl no quintal desde os 13 anos. É essa mesmo a vantagem dele?

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Pedro Barros tem um bowl no quintal desde os 13 anos. É essa mesmo a vantagem dele?

Fin 2008, André Barros coule un bowl dans le jardin familial de Rio Tavares. Son fils a 13 ans. Dix-sept ans, six ors X Games et une médaille olympique plus tard, on regarde ce que ce terrain lui a vraiment donné.

16 septembre 2026 · 10 min de lecture
Guillaume Martin

Rédacteur skate chez NOSK8.

Spots, portraits et culture skate française : chaque article est relu et sourcé. Trois générations de pros au compteur. Chronique mensuelle.

No fim de 2008, num bairro de Florianópolis que ainda era só uma faixa de areia e mato, três caras despejaram concreto num quintal. Um deles se chamava André Barros. Surfista, não skatista. O filho tinha 13 anos e acabava de terminar em primeiro no X Games amador de vert. O bowl que nasceu do chão naquele mês se chama RTMF, de Rio Tavares. Dezessete anos depois, Pedro Barros ainda anda nele.

É a história que todo mundo conta sobre ele, e tem um lado limpo demais pra ser honesto: o moleque que ganhou um park em casa, claro que ia virar campeão. Só que pista particular, tem mais de vinte e cinco só em Rio Tavares — quem dá o número é o próprio pai. E de lá saiu um único medalhista olímpico. Então vamos olhar isso de perto.

Rio Tavares, 2008: o concreto chegou antes das medalhas

É preciso voltar aos anos 90. Uma turma de amigos, André Barros, Rafael Bandarra, Léo Kakinho, compra terrenos em Rio Tavares, no sul da ilha de Florianópolis. Na época, ninguém queria aquilo. É longe, é úmido, não tem nada. Eles surfam, e fica a dez minutos da praia. Como argumento, tava de bom tamanho.

O terreno da família Barros tem 50.000 m². Não é quintal de condomínio: é um sítio. Quando o concreto chega, no fim de 2008, não é só um bowl: um half-pipe, uma mini-rampa e um bowl, os três de uma vez. Pedro tem 13 anos e acabou de ganhar o ouro amador no X Games. O timing não tem nada de acaso: o pai construiu pro que o filho já fazia.

O bowl tem uma cara própria. Não é a piscina californiana perfeita que todo mundo copia há quarenta anos. Um formato meio torto, transições que não perdoam, rolamento rápido. Os americanos que passaram por lá pra andar deram o aval. Nessa cultura, isso vale certificado.

ON LOCATION — RTMF Bowl, Florianópolis (The Berrics)

Um bowl no quintal, aberto pro bairro

Esse é o detalhe que muda tudo, e que a versão “filhinho de papai do skate” sempre esquece de mencionar: o RTMF não é pista fechada. A família abre pro público várias vezes por semana. Molecada de Rio Tavares aprende a mandar um rock to fakie no mesmo coping de um medalhista olímpico.

Isso não é jogada de marketing. É a lógica do bairro: vinte e cinco pistas particulares no mesmo perímetro não formam vinte e cinco fortalezas, formam um circuito. Você anda na de um, termina na do outro. Florianópolis construiu uma cena de bowl densa como nenhuma cidade europeia tem, incluindo Marselha e o Prado.

Vista aérea de Rio Tavares, o bairro de Florianópolis onde o pai de Pedro Barros construiu o bowl do quintal
Rio Tavares, sul da ilha de Florianópolis: dunas, lagoa, casas baixas. Foi ali que o terreno de 50.000 m² da família Barros ganhou seu bowl, a dez minutos dessa praia. Crédito: Agandreta — CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.

Barros nunca saiu da ilha. Montou ali a cerveja dele, a LayBack. Montou ali a marca de roupa, a Privê. Toca projetos sociais no bairro onde cresceu. Nos Jogos de Tóquio, desceu no park com o mapa de Florianópolis estampado embaixo do shape. Não é detalhe sentimental: é um cara que se recusou a ir pra Califórnia quando o meio inteiro explicava que era preciso ir pra Califórnia.

A linha do tempo

Carreira

  1. 2008Pedro Barros e o pai, André, na frente do bowl construído no quintal da famíliaCasa GNTAndré Barros despeja o concreto do RTMF no quintal da família, em Rio Tavares. Pedro tem 13 anos e acaba de ganhar o ouro amador no X Games.
  2. 2014Pedro Barros crava o ouro no park do X Games Austin 2014X GamesQuinto ouro no park do X Games, em Austin. Desde o ouro de estreante em 2010, ele nunca terminou abaixo do segundo lugar na modalidade.
  3. 2016O run vencedor de Pedro Barros na Vans Pool Party 2016, no bowl do CombiThrasherVans Pool Party, mais a etapa da Vans Park Series de Florianópolis, ganha em casa, na ilha dele.
  4. 2018Pedro Barros na sua part Silver Era para a Drop Dead, filmada entre bowls e pistas brasileirasDrop DeadPart Silver Era para a Drop Dead, e título de campeão mundial de park em Nanquim. O ano em que o competidor e o cara de vídeo se sustentam juntos.
  5. 2021Pedro Barros na final do park nos Jogos de Tóquio, o run que lhe rende a prataOlympicsPrata olímpica em Tóquio, 86,14 pontos. Primeira medalha do park masculino brasileiro, logo na estreia da modalidade nos Jogos.

Tóquio 2021: 86,14 pontos e uma medalha que antes não existia

O park estreia nos Jogos em agosto de 2021, um ano depois da data prevista. Barros passa a classificatória com 77,14. Quarto. Na final, ele manda um run de 86,14 que o gruda atrás do australiano Keegan Palmer e na frente do resto do mundo inteiro. Prata.

Olha a foto logo abaixo: as arquibancadas estão vazias. Sem público, protocolo sanitário. O cara que cresceu com o bairro inteiro gritando na beira do bowl do pai pegou a medalha num estádio mudo. Ainda assim ele sorri, e sorri de verdade.

Pedro Barros com a medalha de prata do park nos Jogos de Tóquio, diante de arquibancadas vazias
Tóquio, agosto de 2021: Pedro Barros e a prata do park, num estádio sem público. Primeira medalha olímpica do park masculino brasileiro. Crédito: Breno Barros / Rede do Esporte — CC BY 3.0 BR, via Wikimedia Commons.

Um estilo que os juízes nunca souberam colocar numa caixinha

Pra situar esse estilo, é preciso voltar a 2018. A part dele, Silver Era - 2018 já não passava de mão em mão em VHS, mas a gente assistia do jeito que se assistia VHS: o link do Vimeo jogado no grupo, quatro amigos em volta da mesma tela do computador, e aquele cara andando rápido demais em transições brasileiras que nenhum de nós saberia achar no mapa. A gente voltava o vídeo na mesma manobra. Vinte anos depois de Welcome to Hell, o gesto era o mesmo — só mudou a barra de progresso.

Barros anda rápido. Rápido demais pra um formato com nota. Enquanto a modalidade se padronizava em torno de runs calibrados, tal manobra em tal lugar e rotação máxima, ele emenda linhas que parecem uma sessão com os amigos passada em 1,5x.

Isso custou pontos pra ele. E também rendeu seis ouros no X Games, o que encerra o debate. Mas a informação de verdade está em outro lugar: quando a World Skate escreveu as regras do park olímpico, foi preciso inventar um critério de nota pra uma modalidade que nunca tinha tido um. Ele já tinha dez anos de bowl de família nas pernas. Um bowl que ninguém desenhou pra agradar juiz.

Pedro Barros de cabeça pra baixo acima do coping, com a cabine dos juízes logo embaixo dele
STU National, Porto Alegre: Barros passa de cabeça pra baixo acima do bowl, com a cabine dos juízes no quadro, bem embaixo das rodas. O estilo que nenhum critério de nota pediu. Crédito: Câmara Municipal de Porto Alegre — CC BY, via Wikimedia Commons.

Paris 2024: quarto lugar a 0,20 ponto do bronze

Três anos depois, mesma modalidade, outro desfecho. Em 7 de agosto de 2024, na final do park em Paris, Barros solta um run de 91,65. É monstruoso. É quarto lugar. Keegan Palmer fica com o ouro com 93,11, o americano Tom Schaar leva a prata com 92,23, e o brasileiro Augusto Akio o bronze com 91,85.

Zero vírgula vinte. Vinte centésimos de ponto entre uma segunda medalha olímpica e o quarto lugar, aquele que ninguém comenta. Aos 29 anos, numa modalidade em que os vencedores costumam ter dez anos a menos que ele. E o compatriota que o tira do pódio também cresceu num bowl brasileiro.

Então, esse bowl no quintal é mesmo a vantagem dele?

Resposta seca: não. Não no sentido que a gente costuma dar.

Um quintal de infância não fabrica currículo. Se fabricasse, Rio Tavares teria produzido vinte e cinco campeões em vez de um. O número de horas em cima do skate, isso sim conta, e Barros tem milhares de horas de vantagem sobre um moleque que precisa pegar dois ônibus pra achar concreto. Mas não é aí que a diferença se decide.

O que o RTMF deu pra ele é outra coisa, e é mais rara: ele nunca precisou performar pra ter o direito de andar. Sem horário de funcionamento, sem sessão pra render, sem ninguém dando nota. Quando você anda em casa, pode passar três meses numa manobra só sem que isso custe nada a ninguém. E pode construir um estilo que nenhum júri validou — porque júri nenhum estava ali.

É exatamente o que se vê em Tóquio e em Paris. O cara não anda como quem aprendeu a ganhar campeonato. Ele anda como quem aprendeu a andar de skate, e vai pro campeonato com o que tem. A prata de Tóquio e os 0,20 ponto de Paris vêm do mesmo lugar: um cara que nunca se formatou, numa modalidade que acabou se formatando em volta dele.

Pedro Barros aos 30 anos, retrato na coletiva de imprensa do STU Pro em Porto Alegre
Porto Alegre, março de 2025. Dezesseis anos depois do primeiro concreto despejado no quintal, Barros segue no circuito, e continua andando no mesmo bowl entre um campeonato e outro. Crédito: Alex Rocha / PMPA — CC BY, via Wikimedia Commons.

Hoje, quando você vê um moleque de 15 anos mandando um air alto demais pra ser seguro, com uma posição de braço que ninguém ensinou pra ele, tem boa chance de ele ter passado a infância num bowl de bairro em vez de numa estrutura federativa. É a mesma fôrma do Barros. Ou melhor, a mesma ausência de fôrma. As cenas que constroem concreto pra molecada, como Malmö há vinte anos, não fabricam campeões. Fabricam gente que anda de skate por si. Alguns viram campeões por acidente.

Barros tem 31 anos. A modalidade se profissionalizou em volta dele e ele não mudou nada: mesma ilha, mesmo bowl, mesmo jeito de andar rápido demais. Rayssa Leal tem 18 anos e quatro títulos seguidos; ele tem treze a mais que ela, e terminou em quarto nos Jogos dois anos atrás. O quintal não tem nada a ver com isso. A liberdade que ele tomou ali, sim.

E você, qual foi o pico onde aprendeu: um bowl de bairro, um estacionamento, uma rampa improvisada? Manda o lugar exato.Deixar um comentário

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Le lexique

  1. 1

    bowl

    Cuve en béton aux parois courbes, héritée des piscines vidées de Californie. On y roule en continu, sans jamais poser le pied.

  2. 2

    coping

    Le tube métallique posé sur le bord supérieur d'un bowl ou d'une rampe. C'est là que se bloquent les grinds et que se prennent les appuis.

  3. 3

    run

    Passage chronométré d'un skateur en compétition, généralement 45 secondes, noté d'un seul bloc par les juges.

  4. 4

    transitions

    Les parties courbes qui relient le fond plat d'un bowl à ses murs verticaux. Plus elles sont serrées, moins elles pardonnent.

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